Diário de Bordo de uma navegada de Foz do Iguaçu até Buenos Aires em 2004 no "Paraty-Mirim", um pequeno barco de madeira de seis metros  com um motor de centro a diesel de 5 HP. Construído por Jorge Pascal Badia Urell, antes havia navegado de Barra Bonita-SP até Foz do Iguaçu, pelos rios Tietê e suas nove eclusas e o rio Paraná. A velocidade foi de cerca de 8 Km/h mais 5 Km/h da corrente, 80 a 100 Km por dia.

 

 

Mapa Barra Bonita a Foz do Iguaçu
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Mapa Foz do Iguaçu a Buenos Aires
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30.01.2004 – Cheguei a Iguaçu e foram dois dias de limpeza do barco, que ficara por oito meses no Iate Clube Lago de Itaipu. Parecia não acabar nunca, com muitas interrupções para conversar com os sócios do clube que, final de semana, interessavam-se por aquele barco diferente, seus navegantes e seus planos.

04.02.2004 – De manhã o Florêncio, Diretor de Náutica do Iate Clube Lago de Itaipu, gentilmente levou-nos de carreta para o Iate Clube Cataratas, pois não há eclusa para descer a represa de Itaipu, só planos de construir uma. Chegando, fomos direto para a rampa íngreme e o “Paraty Mirim” novamente flutuou no Rio Paraná. São apenas 5 km até Puerto Iguazu, Argentina. Desce-se uns 4 km o Paraná, até o marco das Três Fronteiras, quando o Rio Uruguai desemboca no Paraná fazendo um T : Brasil de um lado do rio Uruguai, Argentina do outro, e o Paraguai do outro lado do Rio Paraná. Entramos no Rio Uruguai, já avistando a cidade. Quase nenhuma correnteza no mesmo rio que pouco acima apresenta as famosas Cataratas, depois de nascer perto de Curitiba e serpentear até a foz no grande Rio Paraná. Atracamos e logo vem o oficial da ‘Prefectura Naval Argentina’, uma espécie de guarda costeira que controla e acompanha as navegações no país, como num plano de vôo. Mas nosso contato inicial não foi muito feliz : a partir de leve irregularidade na habilitação do Badia, mais um mal entendido de diferenças de classificações entre as marinhas dos dois países do que algo grave, tivemos que ficar em Puerto Iguazu por dois dias, com duas idas de ônibus ao Brasil, onde facilmente conseguíamos , na Capitania Fluvial do Paraná, cartas que tudo explicavam em nosso auxílio. Mas tudo era estranhamente lido sob olhar restritivo, dava a impressão de que havia uma ‘operação-padrão’ por lá. No terceiro dia nos deixaram partir. A explicação - afinal - foi um arrocho que o comandante, de férias em Santa Catarina no ano anterior, havia levado de uns policiais por lá, como contou.
O Paranazão por lá é um rio lindo, muito largo, só com natureza nas duas margens. A correnteza no meio nos ajudava bem. Foi ótima minha primeira impressão de navegar um rio : matar a sede simplesmente estendendo um copo para fora (abstraindo umas espuminhas que aparecem às vezes, devem ser dos vegetais das costas se decompondo), observando o mágico desfile verde nas margens, às vezes de binóculo para observar uns ‘ribeirinhos’ que pescavam ou lavavam roupa. E os ‘rebojos’, redemoinhos e convulsões estranhas na superfície, resultado do choque da água em correnteza com grandes pedras no fundo. Vimos alguns com depressão de uns dois palmos no centro. Interessante, desde que já havíamos classificado como folclore as histórias de barcos sugados pelos ‘rebojos’. À tardinha chegamos a Puerto Libertad, percorridos 53 km de Puerto Iguazu. Recebeu-nos um simpático soldado da Prefectura, colocando logo à nossa disposição as instalações do posto. Mais tarde levou-nos para o Comando, a uns 3 km, onde o Comandante ofereceu-nos para o pernoite um quarto com todos os confortos.

 

05.02.2004 – Antes da partida, observamos a linda vista que o posto oferecia do Paraná, a uns 30 metros acima do rio. E nos impressionamos com a narração do mesmo soldado simpático sobre o nível que as águas atingiram na enchente de 1991. Lá no alto fotografamos o alicerce suspenso de onde costumava ser o posto, que a água levou na enchente ! Outro fato interessante, de que já havia tido a impressão no lago de Itaipu, era que parecia que havia maré na água. Os movimentos de abrir e fechar comportas da gigantesca Itaipu alteram o nível do Paraná a toda a hora. Os argentinos das margens ficam culpando Itaipu pelos cuidados que tem que ter para não encontrar os barcos no seco na manhã seguinte.
Ao zarparmos um soldado perguntou se não queríamos esperar um pouco para passar uma chata paraguaia que se aproximava subindo o rio. Acho que respondemos algo como ‘e daí ?’ e saímos. Logo avistamos a chata aproximando-se contra nós. Manobramos para cruzá-la à direita, no lado do Paraguai. Tomei um tempo preparando a câmera para fotografá-la. Não nos ocorreu uma situação que já havíamos lido no diário do “Remar até o Mar”. As chatas, a maioria paraguaia naquele trecho, são grandes rebocadores que puxam ou empurram diversas barcaças carregadas de cereais e grãos. São enormes ! E quando passam formam grandes ondas, só que, diferente das mesmas ondas no mar, elas batem nas margens e voltam. Em poucos minutos estávamos loucos escolhendo as maiores ondas, que vinham de dois lados cruzados, para aproar o barco para melhor enfrentá-las. Ufa ! Sobrevivemos. Comecei logo a estabelecer rotinas para as próximas, para nunca mais passar por aquele sufoco : 1 - vestir os coletes imediatamente. 2 – buscar algum refúgio porventura existente nas margens. 3 – sem refúgio, checar logo o lado a ficar. O Badia havia notado que havia pedras no outro lado, eu não. Seria uma graça ficar manobrando no meio das pedras e ondas. 4 - enfrentar a situação adrenalinado, surpresinhas destas nunca mais.
Seguimos a viagem tranquilamente e entramos na foz de um arroio no lado paraguaio, que tinha umas lindas cataratas a uns cem metros adentro. Paramos para apreciar o visual cheio de vapores da queda e fotografar. Em 1991, quando o Guidotti, de Piracicaba, fez sua navegada no mesmo trecho, conta em seu livro sobre margens bem diferentes das que vimos agora : o nível do rio devia ser bem mais baixo, pois conta de grandes barrancos na margens, com todos os rios, arroios e córregos caindo no Paraná em catarata. O Carlos e o Alessandro do ‘Remar’, em 1999 , já não mencionam os tais barrancos.
À tarde chegamos a Puerto Eldorado, com direito a escolta de uma lancha da Prefectura. O local tem um grande cais de cimento de uns vinte metros de altura com uma prainha ao lado. Atracamos ao lado de uma grande lancha da Prefectura e subimos para almoçar num restaurante com visual do rio. Havia uma Alfândega porque havia uma travessia regular do Paraguai. Passamos a noite na cidade de Eldorado, em um Hotel. Uma comprida cidade, parece haver se desenvolvido apenas ao longo da estrada, por quase 15 km. Nos bares com mesas de plástico ao ar livre bebemos umas Quilmes, um litro de cerveja boa por menos de 3 reais ! Aquele não parecia um país em crise. Verdade, o interior parece ter uma vida própria, mais independente das notícias de jornais que as capitais. Também notamos o paradoxo de não haver lixeiras e tudo ser muito limpo. É, nosso vizinho parece ser bem diferente do nosso gigante adormecido.

 

06.02.2004 – Que turismo agradável e diferente mergulharmos em ‘pueblos’ do interior, gastar algum dinheiro, comermos um inigualável churrasco argentino, mas logo voltarmos para nosso lúdico convívio principal com a Mãe Natureza na nossa especial ‘expedição’. Navegamos o dia inteiro tudo observando, pouco de “civilização”, às vezes uma instalação de carregar grãos em chatas, nos dois lados, às vezes umas fazendas no lado do Paraguai. Os ‘rebojos’ quase sempre na superfície do rio. Passávamos por regiões em que existem muitas prainhas de areias claras. Com o sol forte, as paradas para um banho de rio eram a glória.
À tardinha, resolvemos passar a noite acampados na margem. Era noite de lua cheia. O Badia dormiu no barco e eu ao ar livre, ao lado da barraca armada. Era um silêncio muito mágico, um rio muito lindo, largo e iluminado, um céu muito estrelado para enfiar-me numa barraca. Acho que a energia dos rios não está distante da do mar, cansa mas nos provê boas noites de sono.

07.02.2004 – Acordamos cedo e nos defrontamos com a costa paraguaia iluminada pelo sol, a nossa nas sombras, toda a superfície de Sua Majestade o muy guapo y nobre Rio Paraná coberta de brumas de evaporação, uma visão de arrepiar. Fotografamos mas as fotos não conseguem mostrar o show daquela manhã.
Seguimos viagem, com a nítida sensação de que o passar das margens era um desfile que o nosso lindo planeta azul proporcionava só para nós, naquele momento. Que barato !
Passávamos pelos postos da Prefectura Naval sem parar, apenas um alô pelo rádio para eles marcarem nossa passagem.
Um corte de vida real, eu já estava atrasado na minha licença de uma semana no trabalho, resolvemos interromper este trecho da viagem antes do planejado, em algum porto bom que aparecesse. Aí aconteceu algo estranho : pela primeira vez fomos navegando e acompanhando a carta náutica, e a geografia não batia com o mapa. Curva para a esquerda, aparecia uma para a direita. Curva para a direita. Não chegava, só uma longa reta. Paramos para perguntar para algumas pessoas que apareciam na margens, mas as respostas também não batiam. Finalmente chegamos num ‘Puerto Mani’. Combinamos com o Mário, condutor da barca de travessia para o Paraguai, a guarda do “Paraty Mirim” por uns dois meses, até voltarmos. Do outro lado do rio havia um clube náutico paraguaio que parecia querer sacanear a Argentina com o volume do som que emitia de longe, e como em toda a região, principalmente músicas brasileiras sertanejas. Almoço e banho e parti de táxi para a Ruta 12, para pegar o primeiro ônibus rumo ao Rio de Janeiro. Peguei um local para Puerto Iguazu, que virava ônibus urbano a cada cidade de que se aproximava, longa viagem.

14.04.2004 - POSADAS-AR - Cheguei ao Camping Municipal de Posadas, onde o Badia me esperava para a continuação da navegada. Em fevereiro havíamos deixado o "Paraty Mirim" em Puerto Mani e o Badia o havia trazido a Posadas, a capital da Província de Misiones. Como todas ao longo do rio, Posadas tem uma linda “costanera” à beira do rio, esta novinha e construída pela binacional Yacireta como compensação pelos prejuízos causados pelo lago da represa.
O Camping Municipal de Posadas está um tanto decadente, apesar de situar-se em belo sitio à margem do rio. O Paraná, quando banhando grandes cidades, é poluído como qualquer rio que conhecemos na mesma situação. Mas lá tivemos contato com pessoas muito solidárias e amigas : o Tito e a Yvonne, administradores, que nos apoiaram no que puderam. Ele tem um barco de aço que originalmente era uma baleeira de navio e onde foi fazendo modificações diversas até tornar-se, hoje, uma curiosa mistura de barco do Popeye com o Yellow Submarine. Compramos dele, por 100 pesos (= 100 reais), um fogão chinês a querosene, parente dos lindos Coleman atuais.
Conhecemos também o Hector M. Wrublewski , dono do Club Nautico Posadas, ao lado da Prefectura Naval. Misionero de origem de prussianos e russos, Hector já viveu vidas diferentes como 12 anos na marinha mercante, já morou no Brasil e planeja uma viagem em seu veleiro "Zeppelin" de Posadas ate Cabo Frio (ver aqui ). Nos dias anteriores, o Badia havia conhecido também o Tincho, proprietário de dragas de areia na região, o Gualter, dono de linda lancha ancorada no camping, o Mario Zamboni e o Di Falco. O “Paraty Mirim” angariava curiosidade e admiração por onde passava. Talvez um pouco mais do que o normal entre as gentes do meio náutico, sempre simpáticas e acolhedoras : um barquinho de madeira, de construção artesanal própria, com um motorzinho de centro a fazer uma longa jornada fluvial.

16.04.2004 - POSADAS - GARAPE - Saímos cedo para a continuação deste terceiro trecho da viagem. Navegação tranqüila no inicio do lago da represa de Yacireta (binacional Argentina-Paraguai), mas as cartas não nos serviam no lago por terem 30 anos de idade, quando nem se pensava em construir a represa e alagar o Paraná naquela parte. À tarde fez bastante calor, quando nos dirigíamos para um Puerto Garape, escolhido aleatoriamente a partir da distância que estimávamos navegar em um dia. Garape veio a revelar-se uma escala completamente inútil na navegação, pois está hoje no fundo de uma grande enseada, ou curva na costa do lago de Yacireta. Além deste atraso de quase um dia em comparação com se tivéssemos nos dirigido direto à eclusa, em Puerto Garape vivemos o maior incidente na navegada até hoje : após dificuldades em sua localização pelas alterações nas cartas náuticas, chegamos pelas 17 horas em uma prainha de uns 200 metros, rasa e cristalina, sem ninguém. Amarramos o barco de proa na praia e ancorado na popa e subimos para o posto da Prefectura Naval. Anoiteceu e, enquanto tomávamos banho, começou a ventar e descemos para praia preocupados com o barco. Começavam emoções fortes na viagem : na mais completa escuridão, o "Paraty Mirim" balançava entre altas ondas e os galhos de árvores na beira da praia. Entramos na água e passamos mais de 40 minutos tentando puxa-lo mais para o fundo e amarra-lo a troncos, tudo em vão. O carro da Prefectura iluminou-nos por um tempo mas retirou-se logo com sua bateria fraca. Exaustos naquela luta sem sucesso na mais completa escuridão e assistindo as ondas altas batendo-lhe na popa, decidimos deixa-lo alagar-se por falta de melhor opção, ao mesmo tempo evitando que viesse a ficar batendo com o casco no fundo raso e arenoso. Decisão difícil mas necessária, salvar o barco e molhar tudo o que se tinha a bordo, motor, roupas, documentos, câmeras, tudo. Enquanto lutávamos contra as ondas de mais de um metro apareceu uma lanterna na mão de alguém na praia : era o garoto Lucas, que ajudou-nos no que pode e lembrou-nos, ao fim, de amarrarmos tudo para que não sumissem à deriva no rio. Esta providência, que no cansaço poderia ter nos escapado, garantiu um dia seguinte sem maiores perdas. Extenuados, dormimos num quartinho com mosquitos do posto da Prefectura Naval, sem que nenhum de seus quatro ou cinco soldados ao menos demonstrassem interesse pelo incidente que nos havia ocorrido, além de não terem auxiliado em nada. Parece que a TV a cabo e o chimarrão  estavam melhores do que alguma solidariedade, dever da própria razão de ser de sua instituição, ou ancestral cultura náutica de apoio e socorro.


 

 

17.04.2004 - GARAPE - Cedo de manhã, muito a fazer. O barco totalmente alagado na prainha agora tranqüila. Faze-lo flutuar novamente foi a tarefa mais fácil : dois baldes e alguns minutos. A seguir foram 6 horas de trabalho extenuante e triste, o Badia principalmente "secando" o motor, tirando a água do tanque de combustível e do carter de óleo lubrificante. Depois de transportarmos tudo o que havia a bordo para a praia, fiquei o dia inteiro tentando secar tudo num dia nublado com sol apenas eventual. A tarefa incluiu ficar constatando o nível dos estragos, das roupas que só precisavam secar aos documentos bastante danificados, câmeras molhadas, etc. E espalhar pelo campo a centena de cartas náuticas. À noite ainda tivemos que armar as 3 barracas para secarem. 

 

18.04.2004 – GARAPE-  ITUZAINGO - Zarpamos cedo com destino à eclusa de Yacireta. Tudo ainda úmido, levaria ainda uns três dias até secar. Uns sete dias para secarem livros e cadernos ! Após 30 minutos de navegação verificamos o óleo lubrificante e estava cinzento, sinal de água ainda presente. Trocamos por óleo novo ainda duas vezes para isenta-lo de água. E como o estoque havia acabado, retornamos a um empurrador de chatas parado nas imediações. Deram-nos um balde de óleo, e soubemos que o carter de cada um dos quatro motores do empurrador leva mais de mil litros de óleo ! Continuamos a viagem, o Badia acompanhando o motor e eu dando uma de “Maria” com o barco parecendo um grande varal. No final da tarde, já avistando a longa represa, assistimos a um belíssimo show de natureza e nuvens, com direito a arco íris.
Tínhamos mapas atualizados de Yacireta, e demos sorte de chegar à eclusa junto com um empurrador paraguaio e passar imediatamente, pois, ao contrário das eclusas do Tietê, não costumam fazer a eclusagem apenas para um pequeno barco. Foi minha primeira eclusagem. Assistimos à simples mas emocionante operação, onde se amarra o barco a uma bóia verticalmente móvel. Descendo o rio, entra-se na eclusa com a porta à frente fechada. Os operadores fecham a portão de trás e soltam a água represada pelo portão da frente, para o nível baixo do rio. O barco desce deslizando na bóia vertical de amarra. Quando o nível da água alcança o nível baixo do rio, o portão da frente é aberto e saímos. A comporta de trás ficou lá segurando muitos metros de água do rio Paraná. Consta que Leonardo da Vinci inventou o sistema.
Dez quilômetros depois, atracamos na cidade de Ituzaingo, a noite caindo. Fomos para um hotel com muitos mosquitos, o que me fez passar o colchão para a varanda aberta e dormir ali.


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19.04.2004 – ITUZAINGO - Passamos o dia na internet e consertando uma conexão do rádio. Encontramos o Tincho, que o Badia já conhecia de Posadas. Deu-nos algumas dicas sobre a navegação nos trechos a seguir e mostrou-nos um velho navio enferrujado no porto : era um dos que puxavam os barcos e navios por quilômetros na forte correnteza naquela parte do Paraná, antes da construção da represa de Yacireta. Possuía possantes motores elétricos para mover os longos cabos de aço. Visitamos também sua draga de areia.
Em Ituzaingo soubemos que a Revista Época havia publicado reportagem sobre a navegação antártica do Amyr Klink, onde o mesmo falava palavras desabonadoras em relação ao Júnior Rameck, de Parati, mecânico do barco milionário na expedição. Conferimos na internet.

20.04.2004 - ITUZAINGO - ITA IBATÉ - Antes de zarpar, voltamos à internet e o Badia enviou à revista uma mensagem de desagravo ao Júnior, que veio a ser publicada na edição seguinte. O Júnior é nosso amigo de Parati há muitos anos e acompanhou o Badia em viagens de veleiro pela costa do Brasil, pessoa honesta e competente como mecânico e proprietário de uma marina construída com seus próprios esforços.
Chegando ao barco soubemos que um canal local de televisão havia nos esperado por mais de uma hora, para uma reportagem sobre nossa viagem. E encontramos o Luca, que nos havia auxiliado na tempestade de Garape, com sua lanterna.
O dia de navegação foi outonal e lindo. De novo tínhamos a nosso favor a correnteza de cerca de 5 km/h do rio, cristalino que nos auxiliava a fugir dos muitos bancos de areia. Muitas ilhas e praias no trecho: a mãe natureza oferecendo-nos os grandes motivos para a realização da viagem !
Chegamos à noitinha em Ita Ibaté. Difícil encontrar o local de atracagem na costa pouco iluminada da cidade. E ao encontra-lo ainda tivemos que lidar com um soldadinho da Prefectura Naval nervosíssimo porque tinha ordens de não deixar nenhum barco atracar no deck da Prefectura ! Sem a mínima noção de marinha para diferenciar uma embarcação chegando de uma longa jornada. A situação foi controlada com a atracação em pequeno deck ao lado e com as desculpas de um sargento pela falta de treinamento e experiência do soldadinho.
O povoado era muito sem graça e pequeno e levaram-nos para o único hotel, o Piedras Altas : um hotel de pesqueiros cheio de gaúchos que apareciam para a pesca dos grandes peixes do rio Paraná. Estávamos cansados e tivemos a sensação que era uma canseira atrasada das dificuldades passadas com as tarefas após o alagamento do barco nos dias anteriores.
 

 

21.04.2004  – ITA IBATÉ - PUERTO ABRÁ – Com poucos cigarros e o uísque para esquentar os corpos, o mapa indicava uma cidadezinha no Paraguai chamada Cerrito. Resolvemos fazer as compras lá, no que seria nossa única atracagem no Paraguai. Não conseguimos: brincamos que a cidade devia ser Shan Gri Lá, pois desistimos depois de lutarmos com bancos de areia por quase uma hora num rio todo cristalino, avistando algumas antenas atrás de algumas ilhas e tendo até que sair do barco por vezes, para ajuda-lo a safar-se dos bancos rasos. Avistamos um povoado no lado argentino, desistimos de Shan Gri Lá e fomos fazer as compras lá.
Havíamos saído de Ita Ibaté com informações de um atalho através do Riacho Abrá, que depois de poucos quilômetros revelou-se uma ótima surpresa : a beleza da navegação pelos Riachos e Arroios paralelos ao grande rio Paraná. Águas mais tranqüilas e margens mais próximas, beleza maior da nossa calma, quase reflexiva navegação.
Passamos pela região de Tuiuty, de célebres batalhas navais na Guerra do Paraguai.
Chegamos pelas quatro horas num belo e rústico recanto de pesqueiros, com cabanas e áreas de churrasqueiras individuais (o que sempre há muito na Argentina).  Novamente muitos gaúchos a sair com lanchas e guias de aluguel para pescar. No final da tarde assistimos às chegadas com muitos peixes de quase um metro de comprimento.
O pesqueiro era de uma arrozeira Rzepecki, e ao chegar subimos à sede e almoçamos conversando com a família que nos serviu. Depois conversamos com o administrador do pesqueiro, o Ramon, e seu filho Cristian. Dormimos nas barracas, para variar.
 

22.04.2004 – PUERTO ABRÁ - ITATI – Saímos continuando pelo lindo riacho, mas ao voltar para o Paraná o dia estava bastante ventoso, com grandes ondas ao sair da proteção do riacho. Insistimos no nosso rumo mas o ângulo das ondas nos fez optar por rumarmos para a costa paraguaia para pegar a proteção do vento nas margens ou aguardar que o vento acalmasse. Estive ao leme por quase duas horas na travessia, com o “Paraty Mirim” comportando-se admiravelmente no “mar bravio”, mas com ondas tão altas que demandavam-me extrema atenção para pegá-las de perfeita proa. Qualquer desvio poderia ser perigoso. Ancoramos o barco numa calma e linda praia numa ilha paraguaia. Fizemos um nescafé e fotografamos o barco compondo com uma estética galhada na praia, dando um tempo para que se aplacasse a fúria das ondas no lado argentino. Cruzamos de volta e seguimos a navegação.
Ao final da tarde já avistávamos ao longe a cúpula da basílica de Itati : era uma cidade de romarias por uma Nossa Senhora de Itati, uma Aparecida deles.
Mas o dia era do vento. Ao final da tarde recomeçou com suas indesejáveis ondas. Continuamos, pois já não era hora de esperar por nada. Subitamente fomos envolvidos por uma cerração que nos deixou apenas a visão de uns poucos metros do rio à volta do barco. Cegueira geral ! Lembrei dos meus vôos por instrumento de avião em Long Beach, décadas atrás. Só que não tínhamos nenhum instrumento para nos auxiliar na cerração total ! Bueno, ainda bem que só durou uns cinco minutos e retornou a visão da cúpula da catedral.  Terá sido alguma mensagem de N. S. de Itati ? Acho que não. Ou não.
A cidade, feia, tinha aquela igrejona rodeada de “camelódromos” de imagens e cuias e bombas e roupas e games e muitas tendas de churrasco e bebidas, todas as áreas alugadas pela Cúria local. Os hotéis todos diziam ter “cocheria”, que queria dizer estacionamento mas que se têm dificuldade para não ler “cocheiras”.  Escolhemos um que era uma área de quartos com banheiros coletivos e cheio de carros estacionados a poucos centímetros das portas dos quartos. Acostumado a dormir tarde, caí no sono às oito e meia da noite, mesmo com o barulho das cervejadas que rolavam entre os carros velhos.

23.04.2004 – ITATI - CAMPING – A cidade nos fazia querer deixa-la o quanto antes, mas o motor do barco não pegou de manhã. O problema parecia ser no bico injetor, decorrências do alagamento de Garape. Na Prefectura nos indicaram um mecânico de “gasolero”, como chamam os motores a Diesel, e encontramos o Sr. Juan Carlos Henhammer. Aposentado de arrozeira, entendia bastante de motores Diesel. A oficina, ao lado da casa, era desorganizada do tipo muy exótica : ferramentas e restos de motores e peças por todo lado, carros e tratores velhos convivendo com as plantas que os invadiam. Conversando com ele e alguns de seus amigos ficamos ali acompanhando a limpeza do bico injetor. Tudo pronto, insistiu em acompanhar-nos ao barco para conferir se funcionaria. Não funcionou, então era a bomba. Mais algumas horas conversando e assistindo à sua carinhosa paciência em lidar com peças entravadas (acho que eu teria dado uma porrada de martelo para libera-la, provavelmente quebrando-a e travando toda a viagem até obter uma bomba de reposição).  Voltamos ao barco, que agora pegou de primeira, o motor com um barulho de quem gostou do amor com que foi tratado. O Sr. Juan Carlos Henhammer não nos cobrou nada por tantas horas para os consertos, tirei uma foto dele no barco e no final do dia zarpamos daquela cidade estranha, encantados pela linda pessoa que lá tínhamos conhecido.
Uns quinze quilômetros depois, acampamos em um lugar bonito e abrigado por uma ilha arenosa. Ficamos conversando e bebendo Fernet puro, parente do Underberg, até a meia noite, ao pé de um fogo.

24.04.2004 - CAMPING - CORRIENTES – Zarpamos tarde, desvantagem das barracas, que não gostam de serem dobradas sujas ou molhadas. Até Corrientes, capital da província do mesmo nome, passaríamos por uma Paso de la Pátria, também referência à guerra do Paraguai. Cidade balneário, bonita e arborizada, comemos um churrasco, compramos óleo diesel e uma garrafa de VAT69, uma promoção ao longo do rio, sempre diminuindo de R$ 19,00 a R$ 15,00, e seguimos viagem.
Começou a fazer frio e nos vestimos de agasalhos cariocas, camisetas embaixo de moletons. Quilômetros depois passamos sob um linhão de transmissão de energia atravessando o rio, de um país para o outro, e começamos a notar manchas na água sempre verde e cristalina do majestoso rio Paraná, a água se tornava marrom claro, denso, com partículas heterogêneas como num liquidificador. Achamos que era o grande rio Paraguai que, após nascer no Mato Grosso , cruzava o Paraguai, inclusive banhando Assunção, e desembocava no Paraná ali onde estávamos. Pois a partir daquele ponto a água do Paraná se tornava marrom claro até o Rio da Prata. Não mais podíamos saciar a sede estendendo um copo para fora do barco nem mais lavar roupas a bordo. Soubemos depois que a alteração tão forte na água do Paraná se originava em um pequeno Rio Vermelho, que desembocava no Paraná próximo ao Paraguai.
Agora já avistávamos os edifícios e a ponte que liga Corrientes a Resistência, a primeira capital da província do mesmo nome, a outra capital da província do Chaco.
Já em regiões mais povoadas, passávamos a deixar o “Paraty Mirim” em clubes náuticos e iate clubes, ao invés de junto às Prefecturas Navales. Assim chegamos, um pouco tontos, à grande cidade de Corrientes, no Iate Club Corrientes, num sábado e com uns vinte sócios do clube a nos receber, cheios de simpatias, curiosidades e afinidades. Em terras de muitos mais lanchas, veleiros e cultura náutica o pequeno, amarelo e simpático “Paraty Mirim”, com as bandeiras da Argentina e do Brasil hasteadas, ia granjeando curiosidade e simpatia de todos os irmãos do país vizinho, a quem parece que o nosso país imediatamente relembra calor, praias, gente alegre e simpática, umas férias passadas e uma grande vontade de voltar sempre ao Brasil.
Saímos pela cidade a buscar um hotel para ficar, só encontrando hotéis de luxo e seus porteiros que passam a vida no “sim senhor” e parecem caprichar na antipatia a quem não parece se enquadrar nos estereótipos dos seus “senhores”. Encontramos uma simpática “Cocheria” de R$ 35,00 para ficar em Corrientes.

25.04.2004 – Domingo – CORRIENTES – Passamos o dia na cidade, a manhã no clube. O motor demorava a pegar, após funcionar suave depois dos tratos do Senhor Juan Carlos Henhammer. Uma conferência no ponto de ignição resolveu. Pegou de primeira.
No clube encontramos o Wolfgang, de Hamburgo, um alto alemão falante de bom espanhol e sua mulher Gisella. No “Corinna Fredericka” (nome dado pelo primeiro dono homenageando as filhas, “dá azar trocar”), um grande e belo veleiro, aspecto de barco das batalhas, não das frescuras, contou-nos da vida trabalhando duro em empregos comuns e o dia – dez anos atrás - em que resolveu parar e curtir a vida através da natureza. Grandes navegações pela Europa e seu leste, sibérias e mares bálticos, tendo cruzado mais de trezentas eclusas !  Já havia navegado alguns rios do oeste do Brasil. Com uma cerveja no Iate Club de Corrientes, saudamo-nos por viver a vida.

26.04.2004 - CORRIENTES - EMPEDRADO – Zarpamos em direção à cidade de Empedrado, a 75 quilômetros, passando sob a ponte de Corrientes, bonita, igual à de Posadas, e ao longo da “costanera”, parque à beira rio que notamos em todas as cidades costeira, linda tradição que raramente ocorre no Brasil.
Saindo da área urbana passa-se pelo local da batalha de Riachuelo, Guerra do Paraguai. Entramos no riacho do mesmo nome até o Paranazão. A lua crescia de dia e nos aproximamos de Empedrado. Começamos a notar o porquê do nome da cidade : as barrancas eram especialmente bonitas, majestosas, verdadeiras catedrais de histórias geológicas passadas. Tiramos um montão de fotografias que depois se revelaram ruins. A cidade não tinha atrativos além da Alejandra, uma moça que tentou escanear umas fotos para nós numa internet pública, sem conseguir, mas só boa vontade.


27.04.2004 - EMPEDRADO - BELLA VISTA – Dia todo de navegação tranqüila. O porto de Bella Vista era apenas um concretão alto e atracamos na prainha ao lado. Fomos recebidos por três crianças de tipo índio e pobre, que tentavam “ajudar-nos”. O Steban falava e eu não entendia. A principio pensei que era o espanhol enrolado que os descendentes de índios falavam e tínhamos dificuldades de entender, mas logo saquei que ele falava guarani. Então brinquei que se continuasse falando guarani comigo eu ia responder em português. Ele começou a falar espanhol. As crianças guaranis são todas muito bonitas, ao menos as guaranis charruas, da região. E tinham nomes também bonitos : Steban, Olga e Sebastian.
Por sugestão e carona do pessoal da Prefectura, fomos para a casa de um Sr. Oscar Gutierrez, que alugava quartos para pescadores. A cidade era pobre com algumas casas majestosas do tempo das riquezas do país no início do século passado, mas degradadas pelo tempo.

28.04.2004 – BELLA VISTA - GOYA – O dia foi outonal de um azul lindíssimo, mas um tanto frio durante todo o dia. Naquela região havíamos começado a ver barcos de transportar gado entre as pastagens, todos gradeados à volta. A cidade fica ao longo do riacho do mesmo nome e nossa chegada foi abanando pra todo mundo na margem. No porto, uma bonita praça da cidade, notamos que no dia seguinte começaria uma “Fiesta Anual del Surubi”, um concurso de pesca do peixe, que apesar de enorme é do tipo do bagre, com pele e muito gorduroso. Também dá muito nos rios do Brasil. O arraial de praxe já estava montado na praça. Havíamos planejado passar o dia seguinte em Goya, o que acabamos por fazer só porque choveu o dia inteiro. A cidade era relativamente grande mas sem beleza além do porto, com um número incrível de carros, motos e bicicletas. Já estávamos desacostumados com o movimento e o ruído de tantos veículos. Passamos a primeira noite num hotel ruim do centro e no dia seguinte mudamos para um melhor perto do porto.

30.04.2004 – GOYA - PERDIDOS ! – Com informações do guarda Ábaco de arroios e riachos a percorrer, fora do leito principal do rio, saímos cedo em direção à cidade de Esquina. Atalharíamos pelo arroio Garapo, riacho Nanganuy e o riacho Caraguatay, chegando a um braço do Paraná e entrando novamente em outro arroio, sem nome na carta, que nos levaria ao riacho Naranjal, quase um braço do Paraná.
Talvez pela primeira vez lidarmos com uma carta contígua lateralmente à anterior, não lhe demos muita atenção e talvez tenhamos entrado errado em outro arroio que não o Garapo. Seguimos pelos lindos arroios e suas margens próximas e encantadoras sem conseguirmos, no entanto, referenciar suas sinuosidades com a carta. Após um tempo navegando meio às cegas encontramos uns barcos militares que faziam manobras na região. Informaram-nos que estávamos no riacho Nanganuy, pouco antes da confluência com o arroio Soto. Então estávamos navegando certo.
Mas algo não estava correto: navegamos por umas duas horas e o arroio começou a estreitar-se com muitos aguapés nas margens, até que se fechou totalmente em aguapés. Retornamos contra a correnteza analisando outras opções por onde havíamos passado. Tentamos uma que logo fechou-se também. Na opção seguinte imagino que também tenhamos errado. Seguimos, já no final da tarde, por um arroio que parecia sem fim, mas com boa correnteza a nosso favor. O sol se punha e nada de ‘bom’ acontecia. Nos estertores da luz do dia chegamos a uma lagoa e buscamos logo um lugar para acampar, antes que escurecesse completamente. Dormimos em um lugar precário, úmido e irregular.

01.05.2004 – Ainda PERDIDOS – Iniciamos uma exploração da lagoa, que tinha correnteza e, em tese, devia levar-nos ao Paraná, o desaguadouro natural da região. Mas logo notamos que eram muitas lagoas interligadas, um labirinto. As correntezas tentadas só nos levavam a aguapés fechando. Passamos o dia inteiro navegando naquele labirinto, cada vez mais desanimados. Em pé na proa para ver mais longe, apenas víamos aqui e ali algumas vacas, nem sobra de gente. Ao final da tarde, encontramos uma lanchinha com um guia e dois turistas pescadores, um italiano. Não era possível explicar-nos o caminho no labirinto e já estava tarde. Combinamos segui-los ao seu povoado e no dia seguinte o guia nos levaria ao caminho para o nosso rio Paraná. O lugar tinha poucas casas, perto de uma fazenda de plantação de tabaco. Acampamos no quintal da casa da família do guia, simpáticos mas muito humildes, todos analfabetos.

 

02.05.2004 – Domingo – Encontro com o Paraná – ESQUINA – Cedo, rebocamos a lanchinha do guia por mais de uma hora até a saída das lagoas. Deixou-nos num córrego que os aguapés deixavam apenas com um metro de largura, dizendo que nos levaria direto ao Paraná. Após duas horas e meia naquela sanga estreita e infindável, alcançamos o nosso Paranazão lindo. Perguntei os nomes dos lugares para alguma análise posterior, que nunca fizemos pois aparentemente nada daquilo constava de nossas cartas: Lago Icuy, a 15 km da Ruta 12, perto de um pueblo chamado San Isidro. O povoado onde dormimos tinha o bonito nome de “Estella Maris”.
Em Esquina se chega por um canal de “acesso” e a gente se defronta com um lindo parque fluvial margeando a cidade, cheio de gentes curtindo o final de tarde com a linda vista das ilhas e do Paraná e do por do sol. Um “chegamos” no posto da Prefectura Naval e fomos para uma casa que alugava quartos, linda e bem à frente do espetáculo do entardecer, ao lado do porto. Vinte e cinco reais por um apartamento luxuoso na linda casa de um casal, ele ex-agrimensor, ela bióloga, que haviam resolvido, anos atrás, dedicarem-se a viver e alugar os quartos da bem localizada casa que tinham no lugar. Comentamos com o casal acerca da diferença de cidades tão próximas e tão díspares : Bella Vista e Esquina tão bonitas e prósperas, Empedrado decadente e pobre no meio. A explicação foi de que as cidades melhores tinham grandes culturas em sistema de hidroponia. De fato passamos por muitas tendas plásticas de hidroponia, mas a resposta não nos convenceu muito. Como em quase todas as cidades um pouco maiores por que passávamos, em Esquina havia uma bonita igreja na praça principal.

03.05.2004 – ESQUINA - LA PAZ – Apesar de ressabiados de nos afastarmos do Paraná, deixamos Esquina seguindo instruções alternativas. Seguimos o Rio Corrientes, que banha a cidade, continuando pelo riacho Ingá até o Paraná principal. Logo depois navegamos uns trinta quilômetros pelo riacho Ingacito, continuando pelo riacho Espinillo, outros trinta quilômetros até voltarmos ao Paraná, perto de La Paz e já na província de Entre Rios.
Mas já nas ilhas da confluência do riacho Espinillo e o arquipélago que precede a cidade, novamente entramos em “atrito” com os mapas de 1973 : sob um frio intenso caiu a noite e navegamos cerca de duas horas além do esperado e do explicável até chegar ao porto de La Paz. Ao atracar reconhecemos o veleiro alemão “Corinna Fredericka”, do Wolfgang. Eu de porre de tanto VAT 69 "prá esquentar". Encontramo-nos na manhã seguinte na internet.

 

04.05.2004 – LA PAZ - HERNANDARIAS – Preparando-nos para zarpar, perguntei ao Wolfgang que mapa usava para navegar. Respondeu-me que, demandando um calado bem maior, preferia só navegar de “carona” seguindo as chatas e navios paraguaios, pois nenhuma carta era de confiança. Despedimo-nos até um próximo porto mas não mais os encontramos. Talvez as caronas tenham demorado a surgir.
Poucos quilômetros rio abaixo, notamos que os dois toldos amarelos que deixávamos encima da tampa do baú da proa haviam sumido. De fato, na noite anterior o guarda da Prefectura havia nos indicado um lugar para atracar que na manhã seguinte notamos tratar-se de um Clube Náutico de La Paz, sem nenhum barco nem segurança. Havíamos dado mole demais para algum barquinho que só precisou puxar os toldos dobrados. E a página da Força Aérea Argentina (em www.meteofa.mil.ar) previa chuva para aquele dia. Mas tivemos sorte : de manhã avistamos a chuva lá na frente e de tarde lá atrás, mas nos poupou naquele dia frio.
Hernandarias é uma pequena cidade que está sofrendo porque as barrancas da região estão caindo, e de fato até assistimos alguns desbarrancamentos enquanto navegávamos. Há uma bonita área municipal na beira do rio, mas está sem movimento desde que a estrada ao local foi soterrada. Os habitantes reclamam da fuga de turistas e movimento e estranhamos não fazerem nada ou pressão para que a municipalidade fizesse alguma coisa para restabelecer a estrada até a parque. Os garotos do “Remar até o Mar”, em 1999, haviam comentado sobre as calçadas de 8 metros da cidade. Medi com passos largos e deu 13 metros ! Gramado com uma faixa de cimento como calçada. Por ironia à situação por que passa a cidade, na margem eles tem um belíssimo deck flutuante lindo e antigo, presente da Inglaterra e todo branquinho reformado, com lugar para bares e bandas tocarem.

05.05.2004 – HERNANDARIAS - PARANÁ – A vinte quilômetros saindo de Hernandarias passamos pela cidade de Brugos, onde uma grande placa brinca por localizar-se no quilômetro 666 do rio com a correlação lingüística do nome da cidade com a palavra bruxos. À tardinha atracamos no Club Nautico Paraná, onde nos esperava nosso amigo Jorge Pereyra, o ‘jotapemarine’, empresário local de náutica. O Clube Náutico de Paraná foi o melhor que vimos em toda a viagem. Bonito e organizadíssimo, teve a fortuna de haver sido construído aproveitando o canteiro de obras da construção dos tubos para o túnel Paraná-Santa Fé, sob o rio, em 1967. Diques secos e comportas onde eram feitas as peças do túnel adequaram-se perfeitamente para um clube náutico. O Comodoro, Sr. Buscema, gentilmente recebeu-nos no clube por alguns dias que pretendíamos passar na cidade. Ficamos em um hotel Latino e, ciceroneados pelo Jorge Pereyra, conhecemos as lindas cidades de Paraná e Santa Fé, do outro lado do rio.

11.05.2004 – PARANÁ - DIAMANTE – Cedo tiramos o “Paraty Mirim” da água na ‘pluma’ do clube para reparar um pequeno vazamento no duto do eixo da hélice. A eterna luta para ter um barco sequinho. E continuamos a navegação, agora contando com as úteis anotações do Jorge Pereyra nos mapas antigos. Jorge é um grande conhecedor de todo o rio Paraná e de muitos outros da região e até do Brasil, onde também conhece a costa marítima. Outro bom dia de navegação, mas continuando um pouco frio. Em Diamante o guarda da Prefectura indicou-nos o Camping Municipal, num arroio ao lado, para ancorarmos. Um lugar meio ermo mas saímos a buscar um hotel com tudo trancado no barco. À noite na cidade fomos surpreendidos pela visita de um oficial da Prefectura Naval enquanto jantávamos em um restaurante. Queria a confirmação de um dos 13 algarismos do número de registro do barco, que não estava batendo.

12.05.2004 – DIAMANTE - ROSÁRIO – Dia de uma puxada de 115 km, saímos cedo rumo a Rosário. Mas logo fomos chamados por um oficial da Prefectura, no cais do porto : queria confirmar o tal número de registro, e aproveitar para dar uma geral de documentos.
A partir de Rosário, aproveitamos as paradas apenas em clubes náuticos e não mais perto da Prefectura para avisá-los das saídas e chegadas diárias através do rádio dos clubes ou por telefone no número 106. Assim passou a ser mais tranqüilo, sem as chateações de números, horas e identificações.  Ao contata-los em pessoa para as informações de saída, destino e chegada, para o acompanhamento obrigatório naquele país, a veia policial se excitava e muitas vezes quase nos davam geral. Para eles poderia tratar-se apenas de quebrar o ócio em que se encontravam, mas nós estávamos a quase um mês pernoitando quase em uma cidade por dia. Em Rosário, conversando com pessoas do ambiente náutico, soubemos que também faziam isso com os argentinos que andavam pelo rio Paraná. Tivemos até sugestões de tirar a bandeira do Brasil do mastro e esquecê-los. Mas nossa origem foi sempre uma marca importante de nossa viagem.
Rosário é a segunda maior cidade da Argentina, ainda que a capital da província seja Santa Fé. A aproximação de lá lembrava-nos do início do final de nossa longa jornada. Muitos portos e terminais privados, muitos navios. Ainda que interessante, não é agradável a visão dos grandes cais, navios e terminais abandonados pelo tempo ou pelas crises, o rio sujo e poluído. Atracamos no Clube Náutico do Ministério de Obras Públicas, onde fomos costumeiramente bem recebidos pelo Capitão de Náutica, Osvaldo Colmegna. Achamos um antigo “Hotel Bahia” no misto de bom e barato. Na recepção  perguntamos a razão do nome do hotel (ainda que baía em espanhol seja com h). Rimos muito com a resposta : “Meu marido foi mandar fazer uma placa de nome e esta já estava pronta e ficou mais barata”.

13.05.2004 – ROSÁRIO – Passeamos pela cidade, admiramo-nos do preço barato dos cinemas (cerca de R$ 4 a 6).

 

14.05.2004 – ROSÁRIO – Não conseguimos zarpar, pois o dia estava frio, nublado e ventoso. E enquanto preparávamos o barco o vento girou para sul, bem ao longo do rio, sem chance de abrigo nas margens. Mais cinema e aguardar o dia seguinte.

 

15.05.2004 - ROSÁRIO – VILLA CONSTITUICIÓN – Agora com uns 10° C de frio mas ensolarado e os ventos calmos, situação que permaneceu durante todo o trecho, fizemos apenas os 48 km naquele dia e atracamos no Clube Náutico local.
Mais para os centros maiores, existem muitos monumentos aos mortos na Guerra das Malvinas, uma triste guerra que mexeu com o âmago dos nossos vizinhos em um tipo de sentimento nacional de que não temos idéia no Brasil : desde crianças aprender-se que está faltando um pedaço do país.
Os hotéis iam aumentando de preço. Já sentíamos saudades do Paranazão e sua natureza só nossa, e dos calmos ‘pueblos’ e suas gentes simpáticas.

16.05.2004 – Domingo – VILLA CONSTITUCIÓN - SAN PEDRO – Saímos com tempo nublado e frio para os 107 km até San Pedro. Apesar de passarmos pelas cidades de San Nicolas, Ramallo e Obligado, entre elas o rio ainda se mostrava selvagem, natural. Chegamos cortando caminho pelo longo riacho San Pedro, numa tarde azul mas bastante fria, o mesmo frio que viria a nos acompanhar até o final. O riacho era calmo e cortava um relevo bastante plano, quase um pampa. Passávamos com as margens gramadas na altura dos nossos olhos, deliciando-nos com o ângulo que muitos bonitos cavalos nos revelava, o céu azul ao fundo.

17.05.2004 – SAN PEDRO - ZARATE ( via Rio Baradero ) – Logo na saída de San Pedro entramos no rio Baradero, junto com um grande veleiro de casco negro, sem bandeiras, com um casal, provavelmente europeu.
Neste momento eu fizemos um brinde de homenagem e despedida ao nosso querido Rio Paraná, a doce estrada de nossa vida nos últimos trinta dias. Até Buenos Aires não mais navegaríamos em seu leito, mas em outros rios e canais e no rio Paraná de las Palmas.
Muitas horas pelo Rio Baradero, passando por muitas casinhas de pesca e lazer isoladas nas margens. Em seu final, algumas mansões.
Entramos, então, no Rio Paraná de las Palmas, bem mais estreito que o Paraná, bem sinuoso e sinalizado. Redobramos a atenção ao grande movimento de navios com tantas curvas, já que não tínhamos velocidade para qualquer fuga eventual. Ao longe avistamos as cúpulas da Usina Nuclear de Atucha, por onde passamos dali a poucos quilômetros. O barco pernoitou no Clube Náutico de Zarate. Ligamos para o amigo Edmar, capixaba há nove anos vivendo em Buenos Aires e trabalhando em náutica, que combinou encontrar-nos na próxima parada no dia seguinte, acompanhando-nos pelo canal de Árias e o rio Lujan até a grande Buenos Aires. Casado com uma argentina e com filhos, o Edmar falou-nos que estava retornando ao Brasil, cansado do frio daquelas paragens.

18.05.2005 – ZARATE - SAN FERNANDO ( via Canal de Árias e Rio Lujan ) – Continuamos navegando pelo rio Paraná de las Palmas até a cidade de Escobar, que estranhamente não constava do mapa. Lá chegando já avistamos de longe o Edmar nos acenando do cais do porto. Festejou muito o encontro e continuamos a navegada, virando logo à direita para entrar no Canal de Árias, de vinte quilômetros de extensão e ligando o Paraná de las Palmas ao Rio Lujan.
Era uma região bastante esperada por nós, e logo começamos a percorrer o canal, quase todo povoado nas margens por sítios e quintas de moradia e veraneio dos portenhos. Todo o tipo de embarcações transitando : barcos dos correios, barco escolar, barcos supermercado, barcos hospital, barcos de transporte público. E não estávamos na época de férias ou verão.  A região é conhecida como o Delta do Rio Tigre e compõe-se de dezenas de canais, riachos e arroios, balneários fluviais bastante povoados. Nada parecido existe no Brasil.
Já havíamos terminado o uso da centena de cartas do Paraná de 1973. Agora o mapa era uma simples folha da carta H-130.
A tarde esfriava e entramos no rio Lujan, que em mais vinte quilômetros já nos levaria à cidade de Tigre, primeira da Grande Buenos Aires. Uma dezena mais, até o Rio de la Plata. As casas de lazer nas margens começavam a dar lugar a portos, terminais privados e muitos, muitos clubes náuticos e “guarderias” de barcos. Nos espantávamos ao ouvir do Edmar que até Buenos Aires seriam quase só clubes náuticos e iate clubes, um ao lado do outro por uns vinte quilômetros !  Novamente, nada parecido existe no Brasil ! Os clubes tinham centenas ou milhares de lanchas e veleiros. As “guarderias” pareciam hangares de aviões, enormes e fundos, com cerca de dez ‘andares’ de ‘gavetas’ de lanchas, centenas de motores de popa expostos para fora como abelhas na colméia.
Já sofrendo a influência do oceano Atlântico, andávamos devagar porque a maré estava enchendo rio adentro.
Eram tantos os clubes que entramos em San Fernando, seguinte a Tigre, num diferente do que o Jorge Pereyra nos havia recomendado. Mas não fez diferença, fomos bem recebidos e o “Paraty Mirim” dormiu na vaga de cortesia. Em San Fernando só havia um hotel, caríssimo, e fomos de táxi para a cidade seguinte, San Isidro.

 

19.05.2004 – FINAL – Pela manhã nos encontramos novamente com o Edmar e fomos de trem até Buenos Aires para pesquisarmos sobre caminhões brasileiros que pudessem estar voltando vazios ao Brasil, para retornar o “Paraty Mirim”.  Com pouco tempo para a busca e sem resultados, procuramos um clube náutico seguro e de bom preço para deixar o barco no seco, deixando para vir buscá-lo no verão com a carreta, e aproveitando para fazer um turismo mais descansado pelo Delta do Tigre.
Voltamos a San Fernando e fizemos o último trecho da viagem no “Paraty Mirim” :  uns dez quilômetros até o Iate Clube San Isidro. Seu Presidente, o Sr. José Luiz, acolheu-nos gentilmente concedendo-nos desconto nas mensalidades e a retirada da água gratuita. À tarde já havíamos encontrado o Martin, argentino conhecido de Paraty e angra dos Reis, onde há anos reside, fazendo ‘charters’ com seu veleiro. Pernoitamos na casa de seu pai, Sr. Carlos, simpaticíssimo e agradável nos seus 86 anos de idade, a quem Martin prestava uma visita semestral. No dia seguinte regressei de ônibus ao Brasil.
Terminavam os cerca de 3.000 quilômetros da Navegada Barra Bonita-SP Buenos Aires no gracioso e competente “Paraty Mirim”, com o velho e heróico motorzinho de centro a diesel que, com seu consumo aproximado de R$ 10,00 por dia, tornou financeiramente viável esta longa e admirável jornada pelas doces águas do Mercosul.